Tocha olímpica coleciona histórias ao passar pelo Velho Chico

Notícia postada em 10/05/2016 12:09

Às margens São Francisco, a pequena cidade de Pirapora acompanhou, nesta segunda-feira (9), o revezamento da tocha olímpica. Até chegar ao rio e ser ancorada no Benjamim Guimarães – um secular barco a vapor que se transformou em ponto turístico da cidade – a chama foi conduzida pelas mãos de cidadãos do município do norte mineiro, como as da indígena Iguaracema Kátia Sulamita da Silva.

Ex-moradora de rua e mãe de oito filhos, Iguaracema deu uma guinadaem sua trajetória até chegar a Pirapora e desenvolver um projeto social voluntário. Às margens do rio, ela dá aulas de zumba e é figura ilustre entre suas dezenas de alunas. Conduzir a tocha, acredita, teve um significado pessoal importante que vai muito além do festivo.

"É como transportar a chama que eu mantive acesa dentro de mim nos momentos mais difíceis e que me fez superar e vencer, me tornando um ser humano melhor. Apesar de todo o sofrimento, sou uma pessoa alegre e consigo transmitir essa alegria para as pessoas", afirmou Kátia.

A hospitalidade mineira tem dado um tom ainda mais alegre ao comboio do revezamento que começou em Brasília, no último dia 3, e que termina no Rio de Janeiro, em 5 de agosto – data em que se iniciam os Jogos Rio 2016. O rio que corta cinco Estados e abastece 521 municípios brasileiros também é um fio condutor do espírito de união difundido pelo esporte. Esse sentimento tem o ex-atleta de BMX Hudson Peixoto de Souza, de 32 anos, morador da cidade.

Depois de viver do esporte por 20 anos, Hudson cuida da peixaria que o pai fundou há mais de cinco décadas. Enfrenta tempos difíceis com a baixa do rio que, desde 2013, sofre com a escassez de chuva na região. Com a maré baixa, o peixe não circula e não procria, o que faz com que o surubim mais famoso do Estado falte em seu refrigerador.

Orgulhoso por assistir de perto um pedacinho da história olímpica, Hudson comentou o sentimento que percebia em seus conterrâneos nas últimas semanas. "A crise tirou um pouco do foco do esporte, mas a passagem da tocha pelo país desperta, principalmente nos jovens, o interesse por mais informações e pelas práticas envolvidas pela Olimpíada", ressaltou.

O céu azul e o calor típico da região mineira nesta época do ano não intimidaram os moradores que pararam suas atividades para acompanhar o revezamento em um tour que segue País afora e corta Minas Gerais até a próxima terça-feira (17). Principalmente nas pequenas cidades, é notável o engajamento e o interesse de crianças e adultos ávidos em ver de perto a condução da chama. Em Pirapora, amendoeiras e árvores frondosas garantiram a sombra no curto percurso de 2 quilômetros percorrido, o que permitiu que muita gente acompanhasse de perto toda a trajetória e seus dez condutores.

Muita gente se abrigou no alto das árvores para assegurar um pouco de sombra e um ângulo melhor para as fotos. Em outro ponto da avenida que margeia o rio, crianças tomavam banho e se divertiam no chafariz da Fonte Luminosa. Uma maneira divertida de aplacar os efeitos da alta temperatura e dar um clima de feriado ao dia útil que trazia de volta à rotina aqueles que há mais de um mês se preparavam para a festa.

Pedal hereditário

Uma das condutoras foi a piraporense Rafaela Lisboa, de 20 anos. Filha de um casal de ciclistas, ela não conseguiu escapar do esporte. "Está no sangue", brincou. O pai, colecionador de títulos, mudou-se de Belo Horizonte para o norte mineiro e por lá construiu uma pista da modalidade. Mesmo no começo de sua trajetória no BMX, Rafaela já conquistou seis títulos mineiros, dois brasileiros e diversos torneios Brasil afora. "Fiquei muito nervosa e emocionada com a escolha do meu nome para levar a tocha olímpica." 

Trio da redação

Em seus pontos de transição, os condutores aguardavam seus momentos de participação, mas quem teve o privilégio de tocar na tocha antes deles foi um trio de estudantes. Victoria Nobre, de 17 anos, Rafael Santos, de 14, e Adriene Tatiane, de 11 anos, foram escolhidos para recepcionar a chama olímpica devido ao bom desempenho escolar que tiveram. Os três venceram um concurso de redação promovido pela rede de ensino do município e, no dia D, desfilavam, orgulhosos, seus uniformes com as cores da bandeira brasileira e a #somostodosbrasil.

"Essa passagem da chama por aqui é muito importante para valorizar nossas riquezas e, principalmente, o São Francisco, nosso rio maravilhoso", dizia a orgulhosa Victoria. "Também acho que haverá aumento da renda e melhoria social", previu Rafael. 

Craque

O mais celebrado de todos os escolhidos para a missão de condutor foi Luís Henrique Pereira Santos. Hoje, com 42 anos, Luís Henrique foi jogador de futebol com carreira vitoriosa. Defendeu Flamengo, Palmeiras, Bahia e Fluminense, além de integrar a Seleção Brasileira nas edições de 1991 e 1993 da Copa América. "Jogar futebol é uma coisa normal, algo que sempre fiz. Agora, participar de um evento como esse é incrível. O Brasil é o país do futebol, mas também das Olimpíadas", afirmou o ex-craque, escalado para iniciar e encerrar o percurso da pira em sua cidade natal, no porto do vapor Benjamin Guimarães.

Pirapora registrava, em 2014, aproximadamente 56 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sua economia é movimentada pelas indústrias de ferro, silício e tecido, alguns dos principais produtos exportados pela região do Norte de Minas.

Durante a segunda-feira, o fogo simbólico deu um rasante por Varjão de Minas, Pirapora, e ainda seguiu para a cidade de Montes Claros. Os destinos programados para esta terça-feira (10/05) são Bocaiúva, Couto de Magalhães de Minas, Diamantina e Curvelo.

Fonte: Portal Brasil, com informações do Brasil 2016 - Na imagem: Ex-moradora de rua, Kátia Sulamita também participou da festa. Foto: Ivo Lima/ME

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