Procissão do Círio de Nazaré chega ao fim após 5 horas de duração

Notícia postada em 09/10/2016 21:27

Após cinco horas de procissão, os sinos da basílica santuário anunciaram a chegada da berlinda de Nossa Senhora de Nazaré. Sob foguetório, hinos de louvor e preces dos fiéis, uma multidão aguardava a imagem no Centro Arquitetônico de Nazaré (CAN). Dom Irineu Roman, bispo auxiliar de Belém, recebeu a imagem. Logo em seguida começou a celebração de uma missa em frente à Basilica Santuário.

A procissão do 224º Círio começou logo após a tradicional missa em frente à Catedral de Belém, um pouco antes das 06h30 e carregou um mar de gente em torno da berlinda com a imagem da padroeira do povo paraense e Rainha da Amazônia: Nossa Senhora de Nazaré.

Ao longo do percurso de 3,6 quilômetros, foram prestadas várias homenagens à Imagem de Nossa Senhora, além dos promesseiros que realizam diversas manifestações de fé. A previsão da Diretoria da Festa é que estiveram nas ruas da capital paraense mais de 2 milhões de pessoas.

Graças e fé - Ainda no início da procissão, no Largo da Sé, entre fitas que tremulam, sorrisos e gestos mais contidos, Zuleide Farias, 51, e o esposo Sebastião Mendes, 49, fixam uma ilha no burburinho que acabou de se calar ao som da missa: um pequeno carrinho de mingau guarda panelas quentes. “Nunca tinha visto um Círio assim”, concorda.

Há nove anos eles vêm vender mingau no Círio.  “Ainda é preciso. Mas torço para o dia em que estaremos melhor e eu possa vir só agradecer, estar aqui só para ela”, diz Zuleide. Com três filhos para criar. Eles vendem o copo de mingau por três reais. “No final eu sempre dou o que sobra aqui mesmo”, sorri Sebastião.

Ao todo, estima-se que imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré irá percorrer 140 quilômetros durante as 12 procissões oficiais do Círio de 2016. A distância das romarias somadas é 10 quilômetros maior do que a percorrida nas procissões de 2015.

A Berlinda percorre o trecho inicial da procissão sem a corda. A imagem de Nossa Senhora encontrará os fiéis que já esperam o atrelamento apenas no Boulevard Castilho França.

Sob fogos na praça do Relógio e do Mercado do Ver-o-Peso, a imagem de Nossa Senhora dobrou rumo ao Boulevard Castilho França por volta das 6h40.

Vinte minutos antes, após o início da missa na Sé, um rio de gente ainda corria para o largo da avenida Portugal. E ainda fluia para as travessas que dão para a área isolada do Boulevard Castilho França. Lá, o estudante Naldo Alves aguardava desde as 4h da manhã. Às 6h40 ainda aguardava, de pé, com a mão esquerda na corda, já comprimido por parceiros de promessa. ''É a fé'', sorria, justifica, sem vontade de revelar o motivo da promessa. É a primeira vez dele na corda.

''Foi uma intersecção de Nossa Senhora. Ela tem muita força'', assevera Maria Gorete Naiff, 63. Na cabeça da senhora, uma casa em miniatura. Ao lado da corda, no Boulevard Castilho França, ela aguardava o momento em que se misturaria à multidão, após o atrelamento da corda. ''Consegui minha casa. Agora só falta a cozinha. Estou terminando'', emociona-se. São lágrimas que vieram de longe. De Marapanim. E agora se unem às de milhões.

A corda do Círio este ano mede 400 metros e pesa 600 quilos. Feita em Santa Catarina, foi trazida de caminhão para Belém. Estima-se que cerca de 8 mil pessoas a carregarão durante a procissão.

O bom atrelamento da corda do Círio à Berlinda é crucial para as procissões. Segundo a Diretoria da Festa, quando tudo corre bem nesse passo, a Berlinda tem mais chances de chegar no horário previsto na Basílica Santuário de Nazaré.

Cerca de 400 homens da Guarda de Nazaré e Diretoria da Festa integram os três núcleos da corda do Círio que são cruciais para o andamento da procissão: as chamadas Estação 1, núcleo e a retaguarda da Berlinda. Semanas antes do Círio, eles fizeram treinamentos para garantir que tudo corra bem, numa grande revisão de passos e verificação de necessidade de manutenção de materiais e processos. 

A berlinda passou a ser atrelada à corda no Boulevard Castilho França com a avenida Portugal, em frente ao Mercado do Ver-o-Peso, desde o Círio de 1995. Desde então a berlinda sai da Catedral de Belém protegida por um cordão humano, formado por homens da Polícia Militar, Marinha, Exército, Aeronáutica e Guarda Municipal, além dos veteranos da Guarda de Nazaré.

Originalmente a Corda, em formato de "U", seguia em volta da Berlinda. Isso dificultava o ritmo das romarias e trechos críticos como a curva da avenida Presidente Vargas. Em 2004 a Diretoria da Festa decidiu que a corda passaria a ser linear, formada por dois núcleos (a cabeça e a berlinda) e cinco estações.

A corda passou a fazer parte do Círio de Nossa Senhora de Nazaré há 161 anos: em 1855, quando a imagem ainda era conduzida por um carro de boi, o atolamento do veículo perto do Mercado do Ver-o-Peso fez com que romeiros atassem uma corda para puxar a imagem. Assim a tradição se fixou. E apesar de proibida entre 1926 e 1930, a Corda voltou ao Círio, a pedido dos fieis, em 1931.

Devoção - Charles de Oliveira Costa, 45, também participou da procissão para pagar uma promessa. O devoto de Nossa Senhora conseguiu uma vaga no do curso de licenciatura em Ciências Naturais da Universidade Federal do Pará (UFPA). "De 2012 a 2014, me preparei em cursinhos, mas sem alcançar o resultado esperado. Desisti das aulas e me apeguei a Ela enquanto estudava só e, agora, com minha graça alcançada, só teho a agradecer”, recorda.

Ao lado de Charles estava sua esposa, Maria de Lourdes Cardoso, 52, que acompanhou toda a trajetória de estudos do marido. "Sei o quanto ele se empenhou. Nazinha, nossa Mãe, nos atendeu", agradece.

Entre tatos fiéis que foram pagar suas promessas, estava Maria de Lurdes Maciel, 69. Moradora da região do Marajó, ela caminhou de joelhos da avenida Presidente Vargas até a Basílica, ato que há 10 anos ela refaz todo Círio. Sua devoção à Virgem de Nazaré se deu pela cura de uma doença que a faria perder a perna. "Acho que foi o Espírito Santo que me iluminou. Me apeguei à Santa, e depois o médico disse que não iria mais amputar", conta Maria, emocionada. Mãe de sete filhos, a promesseira ainda comemora a nova casa que uma de suas filhas comprou em Belém. "Assim, quando venho pra cá, fico mais próxima da Nossa Senhora", diz Maria.

Durante a procissão, o arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira, leu a mensagem enviada pelo Papa Francisco. Em meio a palavras de bondade, perdão e amor ao próximo, o Papa chamou atenção para o ato de misericórdia divina. Segundo ele, é através da misericórdia que se expõe atitudes de bondade com o próximo.

Pagando sua promessa, de joelhos, desde a avenida Generalíssimo Deodoro, Socorro Magno Marques, 40, agradece pela saúde dos filhos, acompanhada pelo marido, Thiago Donato Marques, 33. Thiago diz que o casal tem dois filhos que superaram adversidades. Um nasceu com uma grave síndrome e outra, deficiente física. "Os médicos deram pouco tempo de vida aos nossos filhos, mas eles estão aqui, graças a Deus e a Nossa Senhora de Nazaré. Ela pediu por eles e nossa Mãe nos atendeu, guardando eles", conta.

O próprio nome de Esperança Castro Moreira, 70, define o que traz a devota que há 14 anos dá as graças para Nossa Senhora de Nazaré. "Fiquei doente por três anos, mas Nossa Senhora me curou. Desde então todo ano eu trago presentes", conta ela, segurando um boneco de cera e uma estátua da Santa.

Fonte: Agência Pará - por Lázaro Magalhães, com informações de Sérgio Moraes e Júlia Klautau - Secom)

 

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