Parlamentares repudiam agressão a Stédile, do MST, em aeroporto de Fortaleza

Notícia postada em 24/09/2015 10:09

O clima de intolerância e desrespeito a opiniões e posicionamentos políticos diferentes chamou a atenção dos parlamentares, nesta quarta-feira (23). O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), protestou no plenário contra a agressão sofrida pelo coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, agredido e hostilizado de forma premeditada no aeroporto de Fortaleza por um grupo de manifestantes. Humberto atribuiu as agressões a grupos que defendem o impedimento da presidenta Dilma.

“Em nome de uma pseudodemocracia, esses grupos promovem agressões a pessoas em restaurantes, nas ruas e isso precisa ter um basta, porque o Brasil é um país que tradicionalmente se marca pela tolerância política, social, religiosa e racial”, afirmou.
Segundo o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), a movimentação extremamente agressiva tem nome: “se chama Paulo Angelim, filiado ao PSDB e esteve à frente, organizando, divulgando nas redes sociais”, afirmou. Lindbergh disse que é preciso responsabilidade para lidar com a democracia.

Escalada de ódio
O líder do governo no Congresso, senador José Pimentel (CE), chamou a atenção para a escalada de ódio e perseguição aos mais pobres que parece se espalhar sem fronteiras. “Quando você vê o Primeiro Mundo, como é conhecido o continente europeu, impedindo o livre trânsito de pessoas que são vítimas de guerras patrocinadas por aqueles que vendem armas e são os países mais ricos e, ao mesmo tempo, não aceitam receber essa população que ontem era colônia desses países europeus que hoje rejeitam. Quando você assiste uma senhora, jornalista, agredir um senhor já idoso com uma criança nos braços simplesmente porque ele não era do continente europeu, [percebe que] essas coisas também estão presentes aqui no Brasil”, observou

Pimentel também chamou a atenção para as cenas de agressividade explícita que tomaram conta da sessão do Congresso Nacional que apreciou os vetos da presidenta Dilma Rousseff. “Ontem mesmo, durante a sessão do Congresso Nacional, nós assistíamos alguns “convidados” agredindo diretamente aqueles que pensam diferente ou que têm a coragem de registrar que determinados procedimentos da chamada pauta-bomba não cabem no orçamento da União e não cabem nas obrigações do Estado nacional”, disse

Segundo o líder, o incidente com João Pedro Stédile é parte desse processo. “Ele representa a agricultura familiar, ele representa aqueles que lutam para ter um pedaço de terra para dali tirar o alimento da sua família e nos alimentar na cidade porque, na cidade, nós podemos não ter um carro para passear, podemos não ter uma bicicleta para andar, mas se na panela não tiver o arroz, o feijão, a farinha de mandioca a gente não sobrevive e é isso o que o João Pedro Stédile representa”, reforçou.

Na mesma linha, manifestaram-se em solidariedade a Stédile os senadores Roberto Requião (PMDB-PR), Antônio Carlos Valadares (PSB-SE) e os petistas Paulo Paim (RS) e Fátima Bezerra (RN)

Mais Médicos
Não é a primeira vez que Fortaleza se torna cenário de demonstrações de intransigência e agressividade. Na implantação do programa Mais Médicos, há pouco mais de dois anos, supostos estudantes de Medicina alinharam-se na chegada de passageiros para agredir os médicos cubanos que haviam desembarcado para trabalhar no Brasil. Um dos xingamentos repetidos – “macaco”, dirigido a um dos médicos –, por si só, mostrava a agressividade dos manifestantes.

Agora, novamente com alusão a Cuba, munidos de cartazes impressos – o que denuncia prévia organização – senhoras e senhores saídos da catacumba da ditadura cercaram Stédile e sua esposa com novos xingamentos, quando o líder do MST deixava o aeroporto. Um grupo cercou Stédile e o seguiu até seu carro, em um trajeto de seis minutos, chamando-o de "assassino", "fascista", "comunista", "traidor da pátria" e entoando em canto "MST vai para Cuba com o PT".

Abalado com o ocorrido, José Pimentel, que representa o Ceará, fez questão de deixar claro que o que aconteceu não representa o comportamento do povo cearense. “Foram meia dúzia de pessoas conhecidas que, ontem, eram a base da ditadura militar – eu conheço grande parte deles – outros são filhotes e herdeiros daqueles da ditadura militar que assim age, mas o povo cearense é um povo ordeiro, trabalhador, acolhedor como é a região Nordeste e o povo brasileiro”, afirmou.

Ele recordou que os períodos democráticos do Estado democrático de direito do Brasil são poucos e curtíssimos. “Nesses 515 anos, tivemos de 1946 a 1964 e de 1988 para cá. Portanto, a cultura do Estado brasileiro é a cultura autoritária, ditatorial. Nós procuramos construir uma nova Nação que possa conviver com as diferenças”, ressaltou o líder.

MST
Para a direção do MST, que divulgou nota de repúdio à agressão, o episódio ocorrido com Stédile não é um fato isolado, mas um reflexo do atual momento político do país, em que se vê crescer a cada dia o ódio contra os movimentos populares, migrantes e a população negra e pobre".

O texto compara o episódio à agressão sofrida no último sábado (19) por jovens de favelas cariocas que foram impedidos, sob o risco de danos físicos, de frequentar as praias da zona sul da capital fluminense.

"Estes atos de violência e ódio propagado intensamente nas redes sociais, e que reverberam cada vez mais nas ruas, são mais uma demonstração da violência dos setores da elite brasileira dispostos a promover uma onda de violência e ódio contra os setores populares", diz o texto. A direção do movimento lembrou que recentemente Stédile foi vítima de outra agressão, quando circulou nas redes sociais um cartaz que oferecia uma recompensa por ele "vivo ou morto".

O MST entende que essa onda de ataques é resultado de "uma mídia partidarizada, manipuladora e que distorce e esconde informações, ao mesmo tempo em que promove o ódio e o preconceito contra os que pensam diferente". "São esses meios de comunicação a serviço de uma direita raivosa e fascista os responsáveis por formarem essas mentalidades criminosas e odiosas que alimentam as ruas e as redes sociais com os valores mais antissociais e desumanos que possa existir."
Tais atos, no entanto, não enfraqueceram a luta pela reforma agrária e pelos direitos sociais protagonizada pelo movimento, segundo a nota.

"Não aceitaremos que nenhum militante dos movimentos populares sofra qualquer tipo de agressão ou insulto por defender e lutar por justiça social. Nos comprometemos a permanecer em luta nas ruas pela defesa da democracia, dos direitos civis, da classe trabalhadora e o respeito aos valores humanitários."

Fonte e foto: PT no Senado

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