Na economia, 'Chicago Boys' inspirados em Pinochet

Notícia postada em 06/11/2018 19:09

Reforma da Previdência à moda chilena — onde o trabalhador, sozinho, faz a poupança para sua aposentadoria — e privatizações a esmo são as ameaças mais violentas no horizonte. É o que se pode prever a partir do anúncio da equipe econômica do futuro governo Bolsonaro.

Com um certo toque déjà-vu — Fernando Collor recorreu ao mesmo expediente, em 1990 — o presidente eleito confirma a criação de um “superministério” da Economia, resultado da fusão das pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio Exterior, a ser entregue a seu mais célebre guru, o economista Paulo Guedes.

Nesta quinta-feira (1), a imprensa começou a divulgar os nomes que integrarão a equipe de transição de Bolsonaro na área econômica e que devem ocupar postos chaves na área sob o comando de Guedes, a partir da posse do novo presidente, em 1º de janeiro. Todos absolutamente afinados com a abertura mais selvagem da economia.

Os indicados

Entre eles estão Adolfo Sachsida, economista responsável pela exótica tese de que “o nazismo é de esquerda”, Carlos da Costa, ex-executivo do banco JP Morgan, Marcos Cintra, ex-deputado e entusiasta da regressividade do imposto único, e os irmãos Abraham e Arthur Weintraub, apontados como os designers da dura reforma da Previdência pretendida pelo futuro governo.

Também estão na lista integrantes do governo Temer, como Hussein Kalout, atual secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência, Carlos da Costa, ex-diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Waldery Rodrigues Junior, coordenador-geral da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, além de Roberto Castello Branco, diretor na Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio

Farol comum

A ligação epidérmica de Bolsonaro com Paulo Guedes parece ter um farol comum, a ditadura chilena (1973-1990).

O capitão/presidente é um admirador e nostálgico do banho de sangue promovido pelo General Augusto Pinochet e seus asseclas—pelo menos 40 mil mortos.

Guedes, ele mesmo um aspirante a Chicago boy, é fã das reformas impostas ao Chile, onde o arbítrio sanguinolento criou as condições para as mais ferozes experiências econômicas praticadas pelo neoliberalismo.

Política da ditadura

Chicago boys é o epíteto consagrado internacionalmente para os economistas chilenos treinados na Universidade de Chicago (EUA) sob a batuta de Milton Friedman, responsáveis pela implementação da política econômica da ditadura chilena — que que levou a altas taxas de desemprego, mas que fez a alegria de grandes empresas estrangeiras.

Guedes fez seu doutorado na Universidade de Chicago e, nos  anos 80, deu aulas na Universidade do Chile — na época, um bunquer dos Chicago boys.

“Recordo-o como  um craque, embora assim como Bolsonaro seja aterrorizante”, escreveu em sua conta no Twitter o economista chileno Ricardo Paredes, ex-consultor do banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Banco Mundial e, assessor de diversos governos latino-americanos e especialista em temas antimonopólios e regulação.

Fim da previdência

Entre as heranças deixadas pela ditadura Pinochet, o Chile luta hoje para resgatar uma Previdência que assegure condições mínimas de sobrevivência aos que já não podem mais trabalhar.

Sob a inspiração dos Chicago boys, o regime previdenciário chileno mudou do regime de repartição — no qual os trabalhadores ativos contribuem para uma caixa comum, onde patrões e Estado também aportam recursos e de onde saem as pensões dos já aposentados—para o aparentemente “moderno” regime de capitalização.

Na modalidade de capitalização, é cada um por si (e ninguém por todos): o governo arrecada 10% do salário de cada trabalhador, recursos que ficam em contas individuais e de onde serão pagas, posteriormente suas aposentadorias. Não há aporte do Estado nem do empregador.

Além da insuficiência dos recursos para bancar a sobrevivência do aposentado—as pensões equivalem a valores entre 30% e 40% do salário mínimo chileno—sequer cabe ao trabalhador cuidar do dinheiro que é descontado em seu salário à guisa de “previdência”: esse privilégio cabe a grandes instituições financeiras, que cobram taxas de administração e investem esses recursos do jeito que acham melhor.

Fonte: PT no Senado/Foto: O Vermelho

Comente esta notícia