Mortes no Mediterrâneo atingem proporção inédita, aponta agência da ONU para refugiados

Notícia postada em 08/09/2018 19:17

Um relatório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), divulgado no dia 2 de setembro, revela que as travessias no Mar Mediterrâneo se tornaram mais mortais do que nunca. Apenas em 2018, mais de 1,6 mil pessoas morreram ou desapareceram nessas rotas oceânicas com destino à Europa. Óbitos aumentaram, mesmo com a diminuição do número de migrantes e refugiados que chegam ao continente europeu.

No Mediterrâneo Central, entre janeiro e julho de 2018, uma em cada 18 pessoas que cruzaram as águas rumo à Europa morreu ou desapareceu. No mesmo período, em 2017, a taxa era de uma em 42. O levantamento do ACNUR foi publicado três anos após a divulgação das imagens do menino sírio Alan Kurdi, encontrado sem vida numa praia turca.

“Este relatório confirma, novamente, o Mediterrâneo como uma das travessias marítimas mais mortais do mundo”, afirmou Pascale Moreau, diretora do escritório do ACNUR na Europa.

“Com a queda do número de pessoas que chegam à costa europeia, isso não é mais um teste para saber se a Europa pode administrar os números, mas sim, se a Europa pode demonstrar humanidade suficiente para salvar vidas”, completou a representante do organismo internacional.

De acordo com o documento, as chegadas pelo Mediterrâneo aumentaram de 2017 para 2018 na Espanha e Grécia, mas tiveram queda significativa na Itália. Mesmo com tendências crescentes nos dois primeiros países, a média de migrantes e refugiados que aportam nas praias dessas três nações caiu de 2016 para cá.

De janeiro a julho de 2018, o território espanhol recebeu 27,6 mil estrangeiros vindos pelo mar que separa a África e a Europa. No ano passado, as chegadas alcançaram, no mesmo período, a marca dos 12,1 mil. Na Grécia, o contingente passou de 13,8 mil para 26 mil. Na Itália, porém, o número caiu de 95,2 mil para 18,5 mil.

Nos últimos meses, o ACNUR e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) cobraram dos países europeus uma abordagem conjunta e previsível para o resgate e desembarque de pessoas em perigo no Mar Mediterrâneo. A agência para refugiados solicita à Europa que amplie as alternativas de migração segura e regular, como os programas de reassentamento e reunião familiar.

O relatório do organismo internacional pede que Estados europeus facilitem o acesso aos procedimentos de solicitação de refúgio, a fim de garantir proteção internacional para quem precisa.

Autor lembra morte de Alan Kurdi

Escritor e embaixador da Boa Vontade do ACNUR, o ex-refugiado afegão Khaled Hosseini publicou um novo livro ilustrado para lembrar os três anos da morte de Alan Kurdi. A obra “Oração do Mar” é dedicada aos milhares de refugiados que perderam suas vidas em todo o mundo, enquanto fugiam de guerras, violência e perseguição.

“Quando vi essas imagens devastadoras do corpo de Alan Kurdi, meu coração se estilhaçou em pedaços”, lembra o autor.

Hosseini alerta ainda que “apesar de milhares de pessoas perderem suas vidas no mar, nossa memória coletiva e senso de urgência em relação ao tema parecem ter desaparecido”.

Em junho e julho de 2018, o embaixador do ACNUR visitou o Líbano e a Itália, onde conheceu histórias de famílias devastadas por viagens e fugas perigosas.

“Na Sicília, visitei um cemitério solitário e desgrenhado cheio de túmulos de pessoas, incluindo muitas crianças, que se afogaram em viagens como a de Alan nos últimos anos”, conta Hosseini.

“Agora, cada uma dessas pessoas foi reduzida a apenas um número, um código em um túmulo. Mas todos eram homens, mulheres e crianças que sonharam com um futuro melhor. Três anos após a morte de Alan, chegou a hora de nos unirmos para fazer mais, evitar futuras tragédias e deixar que nossos amigos, familiares, comunidades e governos saibam que estamos juntos com os refugiados.”

(Na imagem de capa do vídeo, migrantes resgatados do Mediterrâneo na costa da Sicília, na Itália. Foto: OIM/Francesco Malavolta)

Fonte: ONU

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