Em Cuiabá, tocha tem encontro com a cultura e o esporte matogrossense

Notícia postada em 24/06/2016 21:57

Na data em que se comemora o Dia Olímpico, chama passeia pelas ruas da capital nas mãos de músicos, artistas e atletas da cidade

Terra da viola de coxo, de danças folclóricas como o cururu e o siriri, do lambadão e do rasqueado. Temperada pelos sabores do caju, da castanha, da cabeça de pacu e da carne seca com arroz servida com farofa de banana frita. Desenhada pelos contornos da Chapada dos Guimarães, banhada pelas águas límpidas de Nobres e selvagem em sua essência pantaneira. Essa é Cuiabá, capital matogrossense famosa pelas altas temperaturas, mas que reservou um dia agradável, com clima ameno, para receber a chama olímpica em seu território, nesta quinta-feira (23.06).

O Mato Grosso é o 20º estado a sediar o revezamento da tocha, que voltou ao Centro-Oeste em sua maratona Brasil afora. O roteiro teve início pela manhã, nas ruas de Várzea Grande, cidade vizinha à capital do estado. Em Cuiabá, o percurso começou à tarde, na Avenida Historiador Rubens de Mendonça, mais conhecida como Avenida do CPA.

A passagem da chama por Cuiabá ocorreu em um dia especial, na mesma data em que é comemorado o Dia Olímpico, criado pelo Barão Pierre de Coubertin para celebrar a formação do Comitê Olímpico Internacional (COI), em 23 de junho 1894. A iniciativa foi tomada em Paris, com o propósito de marcar o renascimento dos Jogos Olímpicos na Era Moderna.

No centro da cidade, o Liceu Cuiabano, tradicional colégio fundado em 1880, sediou manifestações culturais em homenagem ao revezamento. Alunos organizaram uma fanfarra e o grupo Flor Ribeirinha, que mantém vivas as tradições do cururu e do siriri, levou seus trajes coloridos e saias rodadas para girar por lá. De roupas feitas de chitão, exibindo frutas e flores da região,  as meninas dançavam descalças o ritmo alegre, como manda a tradição de dois séculos atrás. Os homens usavam chapéus e sapatos de solado grosso, para fazer o sapateado característico.

Fundadora do grupo, surgido na comunidade de São Gonçalo do Beira Rio, Domingos Silva, de 66 anos, contou que a tradição começou com sua avó e hoje já chega a seus netos. “Estou orgulhosa de poder dançar e mostrar, nesse dia tão especial, que Cuiabá tem cultura.”

A cena cultural local também foi representada pelo roqueiro Billy Spindola. Criado às margens do Rio Cuiabá, ele se encantou com a sonoridade da viola de coxo, instrumento de cordas em formato de pera, inventado ali. “A maneira que encontrei de me reinventar foi trazer para dentro do rock o símbolo máximo da cultura mato-grossense”, explica. Billy começou a estudar formas de eletrificar o instrumento e acabou inventando a guitarra de coxo. Skatista, ele foi além e adaptou uma guitarra em uma prancha de skate, e batizou a inovação de skatarra. “Me sinto dentro de tudo, desde criança sonho em participar de uma Olimpíada.”

O músico conduziu a chama em um ponto da tradicional Avenida Getúlio Vargas, e imprimiu irreverência ao momento. Conversava com os amigos que o acompanhavam, fazia sinais para as câmeras e chegou a carregar sua invenção,  a guitarra de coxo, por alguns segundos.

Triatleta

Carmencita Hokumura foi uma mulher à frente do seu tempo. Na década de 80 partiu do Rio de Janeiro para o Norte do país para investir na sua carreira de piloto de avião. Eram poucas as mulheres que atuavam na profissão e ela era a única a atender garimpos do Pará, abastecendo de alimentos as centenas de homens que tentavam a sorte na vida em busca do ouro enterrado. A chegada a Cuiabá, anos depois, foi uma forma de, como ponto de rota, tentar retomar a história que deixou para trás quando decidiu priorizar a carreira. 

Afastada da aviação e focada na vida em solo, foi a vez de, aos poucos, se envolver com o esporte. Aos 66 anos, já viúva e com tempo livre para dedicar ao cuidado com a saúde, ela nada, corre, rema, pedala e participa de corridas de aventura. Em frente ao parque Mãe Bonifácio, onde costumava treinar, Carmencita conduziu a tocha olímpica sem a pressa que costuma ter nas provas que ainda participa. “As pessoas não foram feitas para estarem paradas, mas para correr, saltar, virar de cambalhotas. É isso que as olimpíadas mostram pra gente, não é?”

Ouro no judô

Os dois são grandes e faixa preta de judô. O pai, Felenon Muller, repassou aos filhos a disciplina e a seriedade com que o esporte deve ser encarado. Dos quatro homens e uma mulher, David Moura, de 28 anos e do alto de seu 1,93m e mais de 110kg, decidiu em 2008 se dedicar com afinco ao esporte. Em 2015, o judoca trouxe o ouro para o Brasil no Pan-Americano de Toronto 2015. Focado nos treinos, o cuiabano é um dos contemplados pelo programa Bolsa Pódio.

Em frente à Arena Pantanal, sede da Copa do Mundo de 2014, ele e o pai foram responsáveis pelo último beijo da tocha em Cuiabá. David acendeu a pira olímpica, mas quem não conseguiu segurar o choro foi Felenon. “David é a sequência do que foi a minha carreira como judoca, pois a idade que ele começou foi a que eu estava encerrando minha carreira profissional. Simbolicamente, repassar a chama a ele representa essa continuidade”, disse o pai. “Foi meu pai quem acendeu essa chama (do esporte profissional) em mim e participar do revezamento junto com ele tem tudo a ver”, completou David. 

Investimento federal

Em Cuiabá, 23 atletas de modalidades olímpicas e paralímpicas da cidade são
patrocinados pelo Bolsa Atleta, programa de incentivo ao esporte do governo federal. Por ano são investidos R$ 320,8 mil. Outros três atletas de modalidades não olímpicas nascidos na cidade também recebem o patrocínio, totalizando R$ 33,3 mil de investimento anual. Já o Bolsa Pódio atende três atletas de alta performance em Cuiabá: Jerusa dos Santos e Ricardo Oliveira, do atletismo paralímpico, e David Moura, do judô. Em 2015 o investimento foi de R$ 492 mil.

 fonte: Brasil2016 - Foto: Ivo Lima

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