As muitas faces e desafios do amor paterno

Notícia postada em 09/08/2015 18:04

A paternidade não se resume a uma condição biológica, ela envolve uma série de desafios que, no mundo contemporâneo, exigem dos homens a revisão permanente de seu papel nessa relação. Da condição de provedor, antes a única que lhes era cobrada, os pais passaram a buscar outros espaços, como forma de estarem mais presentes no processo de crescimento e construção psicopedagógica de seus filhos. A missão de cuidar hoje exige uma expertise que alguns pais tem conseguido demonstrar com muita tranquilidade. Nos mais diversos contextos sociais encontramos exemplos de homens que decidiram fazer a diferença e mostrar que estão dispostos a assumir esse novo desafio.  

Pai Canguru

O choro do pequeno Carlos Salomão, que tem apenas um mês de vida, é quase tão forte quanto a herança dos nomes de rei que traz na certidão de nascimento. Mas o primogênito de Liliane Serra e Carlos Antônio Dias nasceu prematuro e com a saúde fragilizada por infecções. O delicado tratamento de assistência perinatal iniciado pela equipe da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, que busca fortalecimento da imunidade e ganho de peso do bebê, exigiu do pai a sua parcela de contribuição. 

A partir do momento em que Salomão teve o quadro clínico estabilizado para receber o leite da mãe, Carlos Antônio assumiu a missão diária de mantê-lo aquecido e calmo, aconchegado ao peito, por meio do método “Pai Canguru”, que valoriza a atenção humanizada, reduzindo o tempo de separação entre os pais e o recém-nascido, favorecendo a relação familiar.

“Estou desde o primeiro dia com ele, fico aqui de nove da manhã às nove da noite, cuidando dele e pedindo à Deus para que se recupere o mais rápido possível”, conta Antônio. Um dia após o nascimento de Salomão, as enfermeiras da Santa Casa responsáveis pela orientação do método, chamaram o pai para falar da importância de sua participação na recuperação do filho, principalmente para a estabilização da temperatura do corpo e ganho de peso.

“Além dos benefícios físicos, o Método Canguru é responsável por estreitar esse laço entre os pais e o bebês. É uma forma de fazer com que o homem seja mais participativo na rotina da mãe e do filho que estão no hospital, e ainda ajuda a aumentar o vínculo afetivo com a criança, pois o contato com o corpo dos pais é muito importante”, explica a terapeuta ocupacional Gabriele Farias.

Para a criança, explica a terapeuta, a sensação de conforto do método produz quase a mesma condição de proteção do útero, porque une o calor da pele ao aconchego, permitindo ao bebê, inclusive, ouvir o som do coração dos pais, assim como acontece quando ele ainda está no ventre materno.

“É aí que a gente vê mesmo o que é o amor de um pai,. A gente vê aquela criaturinha tão pequena e tão frágil, dependente da gente. É impossível não sentir o impulso de cuidar, de proteger, de aconchegar. Ele até para de chorar quando reconhece o calor e o cheiro do meu peito”, diz o pai, visivelmente emocionado. "Quando ele crescer quero poder contar tudo isso que vivemos aqui, o que fizemos em seus primeiros dias de vida. Quero que ele saiba que estive com ele desde que nasceu", afirma, iniciando em seguida uma conversa com o pequeno Salomão, que mostra bem o quanto essa relação já vem se fortalecendo: "Saiba que eu estou com você desde que nasceu e vou te dar ainda mais amor, mais respeito e vou te ajudar sempre para que você possa crescer forte, saudável e ser uma pessoa de bem”, sussurra para o filho.

Pai com licença maternal, sim senhor!

Radassa Melo veio ao mundo três dias antes de sua mãe falecer, em outubro do ano passado. O pai, César Melo, 27, se viu então diante da missão de cuidar da primogênita sozinho e, por conta disso, precisou mudar radicalmente a sua rotina. A primeira providência a tomar era garantir um tempo maior do que prevê a licença paternidade. 

César é agente prisional da Superintendência do Sistema Penal do Pará (Susipe) e, devido à peculiaridade da situação, a equipe jurídica do órgão decidiu então conceder-lhe a licença maternidade de 180 dias. Neste período, ele e a família tiveram a oportunidade de ficar mais próximos da pequena Hadassa.

“Ela é a minha primeira filha e eu não esperava que as coisas acontecessem dessa maneira. Graças à Deus tive o apoio da minha família e da família da minha mulher, bem como dos amigos e dos meus superiores no trabalho, que me autorizaram a tirar os seis meses de licença para cuidar dela. A partir daí a minha vida mudou completamente”, relata o agente prisional.

César já estabeleceu uma rotina: acorda todos os dias às 5h para fazer o mingau da filha, sai às 6h30 para o trabalho e deixa a filha com a babá - intervalo em que liga várias vezes para saber como a menina está - e no fim do dia volta para casa ansioso para revê-la. Embora pareça cansativa, a correria, segundo ele, é recompensada quando chega e recebe de Radassa o sorriso que o desmonta.

“Hoje eu já não penso mais nem em mim, eu penso só nela. A cada dia eu me esforço em dar o meu melhor como pai, como profissional, para que ela possa ter um futuro e um exemplo de vida digna”, relata Celso, que se prepara para cursar a pós-graduação em sistemas de informação no início do ano que vem, já com vistas a reforçar o orçamento familiar. “Sou formado em Sistemas de Informação e por causa dela resolvi voltar a estudar. Quem sabe com uma pós-graduação eu consiga dar à minha filha as condições que realmente gostaria”.

Lição de amor incondicional

O professor de Matemática Márcio Moraes começou a carreira pública com uma missão dupla: dar conta da demanda em sala de aula e cuidar do filho. Hoje com 15 anos, Gabriel passou por momentos difíceis nos primeiros 45 dias de vida. Ele nasceu prematuro e com má formação nos pulmões. Durante o período em que precisou ficar internado na UTI neonatal, ele teve duas paradas cardíacas, sendo que um delas lhe causou paralisia parcial nos membros e na coordenação fina - capacidade motora que permite usar os pequenos músculos do corpo para atividades como escrever, coordenar os movimentos das mãos e dos olhos, criar peças de arte, mover olhos e lábios, por exemplo.

Quem vê o jovem sorridente não imagina as dificuldades que precisaram ser superadas para que ele chegasse até aqui. Durante os 45 dias de internação, Márcio esteve presente e acompanhando cada momento da luta do filho para sobreviver. Passada a primeira de tantas batalhas, Gabriel foi para casa e Márcio foi aprovado no concurso da Secretaria de Educação do Estado (Seduc). A renda se tornou mais estável e Gabriel começou a passar pelos primeiros tratamentos de fisioterapia.

Um ano depois, com separação dos pais, Gabriel foi morar com a mãe, mas Márcio continuou a acompanhar o desenvolvimento do filho. Em 2005, Gabriel passou pela primeira cirurgia para corrigir os tendões, ossos e musculatura, que garantiria melhores condições para que ele se locomovesse. Um processo difícil que exigiu muito de toda família.

“Por várias noites eu não dormia direito, porque a rotina do trabalho era complicada. A gente trocava horários para eu tentar ficar com ele, mas, mesmo assim era difícil. Eu precisei assumir turmas em mais horários e dar aulas particulares para complementar a renda e pagar as cirurgias e o tratamento pós-operatório. Infelizmente eu tinha que ficar ausente, mas participava em tudo o que podia”, lembra o professor.

A mãe de Gabriel mudou-se para Santarém e, posteriormente, para Macapá. Nesse período, o menino veio várias vezes a Belém para fazer as cirurgias e continuar o seu tratamento, sempre acompanhado pelo pai e contando com os cuidados dos avós paternos. “Papai sempre esteve do meu lado. Essa é uma coisa pela qual eu agradeço a Deus, porque o apoio dele nunca me faltou. Lembro que sentia muitas dores sempre que tirava o gesso e nessas horas a vontade era de desistir de andar. Mas o meu pai me dizia: ‘Vai, filho! Tu vais conseguir, porque tu já passaste por tanta coisa, sei que vais superar mais essa’. E era isso que me dava forças, Vem sendo assim até agora", relata Gabriel, que hoje cursa o 9º ano do Ensino Fundamental.

Com uma nova cirurgia marcada para janeiro de 2016, o jovem diz que a coragem é renovada pelo pai diariamente. Este mês ele veio a Belém novamente para visitar o pai, e diz que está confiante nessa nova intervenção, que promete lhe dar ainda mais mobilidade para se locomover. “Essa cirurgia de janeiro deve ser a pior de todas, mas eu sei que vai dar certo, porque o meu pai está comigo e eu tenho fé em Deus que eu vou me recuperar”, afirma Gabriel, que já consegue andar sozinho, mesmo devagar e com dificuldade. "Os avanços são lentos, mas frutos de uma longa batalha", reforça o pai.

O desafio da conciliação

O major Celso Farias integra o quadro do Corpo de Bombeiros há 20 anos. Ao longo da carreira ele precisou conciliar a convivência em casa com as responsabilidades da profissão. Pai de três filhos - uma moça de 20 anos, um adolescente de 13 e a caçula de nove - ele fala do esforço permanente que faz na tentativa de compensar a ausência imposta pela função.

“Apesar da nossa profissão necessitar de uma dedicação quase exclusiva, nas horas de folga eu sempre tento ficar perto deles e acompanhá-los nas atividades do dia a dia. Hoje em dia não dá pra preterir o bem estar da família em função do trabalho. Se uma coisa não vai bem, a outra certamente não flui também”, diz o major.

O cuidado com os filhos sempre foi bem dividido com a esposa, definida por ele como "uma grande parceira" que o ajudou na educação dos filhos. "Com o passar do tempo e uma boa dose de esforço, consegui conciliar melhor o trabalho com a participação na vida da minha família", relata. Em algumas situações, Celso até pode compartilhar uma pouco da sua rotina com um dos filhos, que à época dizia que queria ser bombeiro.

“Quando meu filho Eduardo tinha 8 anos eu o levei para trabalhar comigo em Mosqueiro. Fiz um uniforme de salva vidas e ele me ajudou a orientar os banhistas. Ele cuidava das crianças e eu dos adultos. Foi um dia muito bacana para nós dois”, relembra. Hoje com 13 anos, Eduardo mudou de planos. Como adora jogos, pensa em fazer uma faculdade específica para isso. O pai, ao contrário do que se pode imaginar, não se decepcionou e diz que o filho tem seu apoio irrestrito em qualquer escolha.

“O meu pai sempre me apoiou e agora ele é quem está vendo uma faculdade e procurando cursos para mim. Em casa, ele ajuda bastante, tanto com a educação, como nos proporcionando momentos de lazer. É legal porque ele dá atenção para todos os filhos, não perde a necessidade de nenhum de vista, confirma Eduardo.

Foto: Cláudio Santos/ Ag. Pará

Fonte: Agência Pará - por Diego Andrade

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